A cidade acorda e com ela acordo eu. O vento varre as ruas e arrasta-me, como uma folha pelas lajes recém-molhadas pela chuva nocturna. Foi mais uma longa noite, como são todas aquelas em que me faltas. O escuro demora-se e alonga-se na minha pele, o sol não nasce tão rápido quanto eu desejaria, os minutos escoam, bem devagar, cabriolam no relógio da igreja e eu, desespero. Caminho pela rua. A madrugada é ainda uma promessa distante, mas no céu, há já um prenuncio de mudança, há cores que flutuam acima das estrelas e um ligeiro brilho que me conforta, que me mostra que a manhã está perto. Saio pela porta e nem vejo como vou. Tenho a vaga noção que estou descalça, as pedras da estrada arranham-me a planta dos pés e arrefecem um pouco deste fogo de querer sem ter. Parece-me que também vou em camisa de noite mas, (realmente) que importa? Estou sozinha e, tudo me pertence, neste silêncio avastador que antecede o burburinho do dia-a-dia urbano e colorido. Olho as minhas mãos, sinto a falta dos anéis e lamento as minhas unhas, o verniz está lascado e decadente, uma metáfora de mim mesma. Olho-me num espelho de um carro, enquanto tento evitar um gato vádio que me persegue e constato, sem surpresa, o meu aspecto miserável. No entanto sorrio. Mal vestida, (será antes bem despida?) despenteada, mal arranjada, possivelmente louca! Mas, estou verdadeiramente feliz. É este o bem que me fazes, uma doçura que quase toca a insanidade e um sentimento de “quero lá saber o pensam de mim só importas tu” que não desaparece. E na rua, não sou mais que uma vagabunda, um sem-abrigo como todos os outros, porque sem ti não existem caminhos, existem desvios. E sem ti não tenho lar, não tenho tecto, é nos teus braços o meu lugar e o teu beijo é a rendição mais doce, depois da prisão do teu corpo a segurar o meu. Por isso, volta, e traz contigo a minha vida, que não sei o que sou sem ela. A verdade é que sem ela não vivo, limito-me a sobreviver à tua ausência, comendo as saudades como quem tem fome, para evitar que elas me devorem a mim.
continua a escrever!!!
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